10 Motivos para Feira de franquias da ABF SP ter sido tão vazia em 2026
Feira fraca não significa mercado fraco
Há vinte anos participo de feiras de franquia, a maior parte delas como expositor na ABF Franchising Expo — a maior feira de franquias do mundo. Na 33ª edição, em junho de 2026, notei algo que já tinha visto antes, mas nunca com tanta clareza: a feira estava visivelmente menor, com menos expositores e buracos no layout, provavelmente marcas que desistiram durante a contratação do estande ou reavaliaram a presença no evento. Público circulando, mas gente realmente interessada em comprar franquia era raridade.
Os números da própria ABF confirmam a percepção de quem estava no evento: cerca de 45 mil visitantes esse ano, contra mais de 60 mil na edição anterior — queda de aproximadamente 25% no público, com menos expositores e uma feira fisicamente menor. Ao mesmo tempo, o setor de franchising no Brasil registrou crescimento de 10,1% no primeiro trimestre de 2026 e ultrapassou a marca histórica de R$ 300 bilhões em faturamento anual. O mercado está aquecido. Listei os dez motivos que, na minha avaliação como expositor de duas décadas, explicam por que a feira esvaziou mesmo assim.
1. A coincidência com a Copa do Mundo — um problema sem solução
Essa já é a terceira vez que pego uma feira de franquias como expositor durante Copa do Mundo, e o padrão se repete a cada edição. Esse ano, a organização tentou uma saída: no dia do jogo do Brasil na quarta-feira, às 19h, a feira funcionou só até as 18h, numa tentativa de evitar sobreposição direta com a partida. Mesmo assim, foi um fiasco de movimento naquele dia. Em Copas anteriores, o jogo caía durante o próprio horário de funcionamento, montava-se telão no evento e a feira praticamente parava para todo mundo assistir — o que também era um fiasco, só que de um jeito diferente.
Na minha opinião, não existe solução real para isso, porque a disputa é desigual por natureza: não tem como uma feira de franquias competir em atratividade com um jogo de Copa do Mundo do Brasil. Todo ano de Copa que coincidir com a ABF Expo vai ter esse problema, independente de ajuste de horário.
2. O lead migrou para o digital
Quem já decidiu investir em franquia hoje pesquisa antes de pisar em qualquer pavilhão — marketplaces de franquia, redes sociais das próprias marcas, comparadores online. A feira deixou de ser o ponto de descoberta e virou etapa de validação final para quem já filtrou as opções em casa.
3. Expositores cortaram orçamento depois de ROI fraco em edições anteriores
Estande e operação de quatro dias custam caro. Marca que não converteu o suficiente em anos passados tende a redirecionar essa verba para tráfego pago e CRM direto — o que explica boa parte dos “buracos” no mapa da feira, provavelmente marcas que cancelaram durante o processo de contratação do estande.
4. A Selic alta afastou o investidor grande
A Selic está em 14,25% ao ano (após corte em junho de 2026), com o IPCA rodando perto de 4,7%. Isso significa que quem tem capital grande consegue hoje algo próximo de 9% de retorno real ao ano numa aplicação de renda fixa de baixíssimo risco — sem operar loja, sem contratar funcionário, sem depender de fornecedor ou de franqueadora. Isso muda o cálculo de quem antigamente comprava uma franquia grande — o profissional liberal, o ex-executivo com rescisão robusta — porque esse capital hoje compete com uma renda fixa historicamente atrativa. Ajuda a explicar por que grandes marcas, que exigem investimento na casa do milhão, vêm reduzindo presença ou saindo de vez da feira.
5. O investidor pequeno mudou de perfil
O espaço deixado pelo investidor grande foi ocupado por quem busca renda extra ou uma alternativa a emprego, com ticket de R$ 50 mil a R$ 100 mil — não necessariamente o sonho de construir uma marca própria, mas resolver um problema mais imediato de renda.
6. A IA virou consultor grátis do pequeno investidor — uma tese pessoal
Aqui registro uma opinião que nunca vi publicada em nenhum lugar: acho que esse investidor menor está mais autossuficiente do que estava há poucos anos, porque tem acesso constante a um consultor de negócios gratuito — a inteligência artificial. Antes, quem queria abrir uma lavanderia ou um micromercado dependia do know-how empacotado de uma franquia para reduzir incerteza. Hoje, essa mesma pessoa pergunta a uma IA “vale a pena abrir uma franquia de lavanderia autônoma ou eu monto por conta própria”, recebe uma resposta honesta — que muitas vezes é “sim, dá pra montar sozinho” — e decide assumir o risco sem franqueadora, porque agora tem um consultor disponível cem por cento do tempo.
Isso não elimina o risco de execução: negociação de ponto comercial, relação com fornecedor, parte jurídica e escala continuam sendo desafios reais que uma conversa com IA não resolve sozinha. Por isso, acho que esse efeito é mais forte em modelos operacionalmente simples — como lavanderia e vending — e mais fraco em modelos complexos, onde o know-how da franqueadora ainda vale caro.
7. Negócios autônomos tomaram conta dos estandes
Micromercados, lavanderias autônomas e máquinas de bebidas quentes e snacks dominaram boa parte dos estandes esse ano — um movimento que já vinha se consolidando há algumas edições, mas que atingiu um novo patamar em 2026, com destaque especial para lavanderia autônoma. É a consequência direta dos pontos 4, 5 e 6: menos gente comprando ticket alto, mais gente comprando ticket baixo e operação simples.
8. Óticas e Academias em alta, moda em baixa — o setor tradicional que sobrou
Entre os segmentos tradicionais de franquia, praticamente só os de óticas e academias se destacaram com força na feira esse ano. Moda, calçados, cosméticos, chocolates e vestuário — historicamente fortes em feiras de franquia — apareceram visivelmente enfraquecidos, mais um sintoma do reposicionamento geral de ticket e perfil de investidor.
9. As crises de reputação do setor pesaram mais do que se costuma admitir
Seria tendencioso — ou alienado — falar de franchising em 2026 sem mencionar a sequência de crises reputacionais que marcaram redes de grande porte no período recente. O efeito colateral desse tipo de exposição no mercado como um todo não é pequeno, e discordo de quem trata isso como ruído passageiro. O produto que uma franqueadora vende, antes de qualquer operação, é confiança. Quando as maiores marcas do país viram manchete pelo oposto disso, o dano contamina a percepção de risco do setor inteiro, inclusive de franqueadoras sérias que nunca tiveram esse tipo de problema.
10. O expositor mede errado o próprio resultado — e isso também esvazia a feira ao longo do tempo
Esse último ponto é diferente dos outros nove: não explica por que o público caiu, mas explica por que cada vez menos expositores acham que vale a pena continuar. A maioria avalia o resultado da feira de um jeito só — quantos leads o estande gerou, quantos viraram franqueado nos meses seguintes. Quando o público cai, essa conta fecha no vermelho e a conclusão vira “a feira não vale mais a pena”, num ciclo que alimenta o próprio esvaziamento das próximas edições.
Existe um segundo ativo que quase ninguém mede — e que não depende do tamanho do público no dia do evento: o capital de marca gerado pelo material produzido durante a feira. O franqueado compra confiança de que a rede é sólida o suficiente para apostar o próprio capital nela, e um vídeo bem feito mostrando presença numa feira grande é prova social que não perde validade meses depois.
Conclusão
Feira de franquia vazia não significa mercado de franquia fraco — os números deste ano provam isso, com faturamento setorial recorde e crescimento de dois dígitos no trimestre. O esvaziamento da ABF Expo 2026 é resultado de dez fatores diferentes, do calendário esportivo à taxa de juros, passando pela reorganização de ticket médio, pela autonomia que a IA deu ao pequeno investidor e pelas crises reputacionais de redes de grande porte — cujo peso considero relevante, não marginal. Quem continuar explicando a feira vazia com um motivo só está deixando a metade da história de fora.
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